Crônicas, Amor & Sexo

Penitência

Acordo já angustiada. Transborda a sensação de falta que habita em mim. Parece ser tarde. A vida já está acontecendo desde muito antes do meu despertar. É tarde para as tantas coisas que gostaria de viver contigo, que deixei passarem por mim. Senti o sabor, a textura, o toque, o cheiro e, em seguida, se foi. Eu fiquei. Acorrentada.

Ao mesmo passo é cedo. Ainda há muito tempo para lidar com esse sentimento, que mistura saudade, culpa, mágoa, amor. Ainda há a noite. Há os finais de semana e, em especial, os finais de domingo. O fim do teu creme esquecido aqui em casa que, na verdade, nunca vai usar até o fim. O fim do cheiro daquela camisa usada uma última vez por ti. Os finais de tudo que fica, em resquícios, de nós na minha vida.

Busco papel, busco caneta. Escrevo. Sempre foi assim. Quando a garganta fecha e as palavras não saem, é pelas mãos que falo. Punhos de grafite sobre o papel. E de repente – não tão de repente – me deparo com incontáveis poemas de lágrimas.

Às vezes me sinto ingrata por escrever tanto mais na tristeza. Mas pensando bem, não é sobre a tristeza que escrevo, é sobre a ausência de algo que era tão bom. Levantou e foi por aí, pra longe de mim, trilhar um caminho diferente.

Fica então a incessante angústia. Acordar cansada. Viver um dia longo, cheio de espaços vazios e pensamentos que tentam adivinhar por onde anda. Um anoitecer que carrega a atmosfera. O silêncio que me obriga a encarar os fatos. As tentativas fracassadas de pegar no sono. A inquietude que não me deixa dormir, mesmo quando desligo.

Abstinência. Nem me reconheço. Como nosso próprio peito pode não parecer nossa casa?

 

Penitência. Vontade de sair de mim. E, mais latente do que nunca, vontade de ti no espaço vazio que teu silêncio deixa.

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