Algum tempo atrás
março 25, 2015

Algum Tempo Atrás

Por Bruna Tesch

Notei, enquanto tomava um café na lanchonete da esquina da casa dela e pensava em sua ardilosidade e persuasividade, que ela possuía temores e mágoas. Por incrível que pareça, temores mais profundos do que seu olhar, mágoas mais berrantes que as paranoias de um esquizofrênico.

Forte, marcante. Incontestável e absurdamente, ela alienava qualquer um que aparecesse em seu caminho. Com doces palavras e belos lábios, os seduziam. Para mim, era por nada, até então, que ela fazia desses homens, suas vítimas. “Devia ser pura diversão”. Deixava-os como uma rata quando abandona seus filhotes. Eles corriam e recorriam atrás dela, na tentativa de fazê-la voltar. Mas, todos eram incapazes de compreendê-la. Eram incapazes de processar os fatos e encontrar a resposta tão simples.

Traída,  machucada, abusada, judiada, ofendida. Ao meu ver, ao meu ouvir, ao meu entender, ela fora desiludida por um homem que a prendeu em seu braços e que com o mesmo timbre de voz perfeito e com o mesmo perfume cítrico que a encantou, a enganou.Ela se tornara uma mulher de batom vermelho e vestidos decotados. Se tornara uma bomba de desconfiança e maldade. Prometera não ser mais ludibriada. Agora somente ludibriaria.

Acontece que acabara por quebrar a promessa. Foi quando eu fui ao seu encontro e com as palavras mais impactantes que encontrei, disse a ela que sabia o porquê de tanto ressentimento. Abusei no tom da voz. Precisa chamar sua atenção, advertir seus sentidos. A peguei pelos braços e contei seu segredo descoberto. Ela derramava lágrimas. Mas, cessou o choro quando lhe confessei o meu segredo: sempre a amei. Trocou os olhos mergulhados na dor de um passado por um sorriso esboçado pela paixão. Confirmei minhas suspeitas. Ouvi da boca dela um inacreditável ”também te amo”.

E hoje de mãos dadas, nos sentimos tão apaixonados quanto no início. Sim. Isso tudo aconteceu quando não possuíamos mais do que três décadas de vida. No momento? Temos oito.